Entre os civis que fogem da violência no Mali, muitos contam histórias sobre “os homens brancos” — os mercenários que trabalham para o Africa Corps da Rússia e que continuam a violar e matar civis com impunidade.
A família de uma menina de 14 anos que procurou refúgio na Mauritânia disse à The Associated Press (AP) na fronteira que combatentes russos entraram na tenda da família, decapitaram o tio da menina, forçaram todos os outros a sair e depois violaram-na. A menina apareceu dias depois com o resto da família na fronteira mauritana, gravemente doente devido ao ataque.
“Estávamos com tanto medo que nem conseguíamos gritar,” a tia disse à AP. “Estávamos todos com medo porque pensávamos que, depois da menina, eles iriam exterminar-nos a todos.”
Sete meses depois de o Africa Corps ter substituído o Grupo Wagner como força terrestre da Rússia no Mali, pouco parece ter mudado. Outros civis que fugiram da violência no Mali contaram à AP histórias semelhantes sobre terem sido atacados por combatentes do Africa Corps que trabalham ao lado das forças armadas malianas. Os mercenários afirmam estar a combater terroristas em todo o país saheliano, mas têm sido regularmente acusados de atacar civis.
“Eles tiraram tudo de nós. Queimaram as nossas casas. Mataram os nossos maridos,” disse outra mulher maliana à AP na Mauritânia. “Mas não foi só isso o que fizeram. Tentaram violar-nos.”
Uma terceira mulher disse que viu vários homens brancos armados arrastar a sua filha de 18 anos para dentro da sua casa. Ela fugiu com medo e não vê a filha desde então.
As forças russas estão no Mali desde 2021, quando a junta governativa convidou os mercenários do Grupo Wagner para o país e expulsou as forças francesas que trabalhavam com o governo eleito para combater o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), afiliado ao Estado Islâmico, e outros grupos.
Desde então, a violência e a destruição no Mali explodiram, em parte, devido à brutalidade dos combatentes russos. O ataque de 2022 à comunidade de Moura, no centro do Mali, tornou-se uma ilustração indelével dessa brutalidade: os combatentes do Grupo Wagner atacaram o mercado local ao lado de soldados malianos. Durante três dias, os combatentes do Grupo Wagner, que os aldeões descreveram como homens brancos que falavam uma língua desconhecida, ajudaram a matar 500 civis e violaram 58 mulheres e raparigas, de acordo com as Nações Unidas.
Especialistas disseram à ONU que um “clima de terror e total impunidade” cercava as actividades do Grupo Wagner no Mali. Os combatentes do Grupo Wagner, muitas vezes, partilhavam fotos e vídeos das atrocidades que cometiam contra civis malianos no canal do Telegram.
A revista The Africa Report encontrou 322 vídeos e 647 fotografias em Junho de 2025. Um relatório divulgado pelo Conselho Europeu de Relações Externas descobriu que os combatentes do Grupo Wagner “partilhavam regularmente fotos e vídeos de assassinatos, estupros, torturas, canibalismo e profanação de cadáveres contra supostos insurgentes e civis.”
Em 2023, os combatentes do Grupo Wagner ajudaram as tropas malianas a recuperar a região de Kidal, um reduto Tuaregue, matando dezenas de civis no processo. Uma emboscada Tuaregue perto de Tinzouaten em 2024 matou mais de 50 combatentes do Grupo Wagner, juntamente com dezenas de soldados malianos. Meses depois, em Junho de 2025, o Grupo Wagner anunciou que estava a sair do Mali.
Mas nunca chegou a sair de facto. Muitos desses mesmos combatentes do Grupo Wagner simplesmente passaram a fazer parte do Africa Corps, operado directamente pelo Ministério da Defesa da Rússia. Desde então, pouco parece ter mudado na forma como os russos operam no Mali, de acordo com testemunhas.
Bethsabee Djoman Elidje, gestora de saúde feminina na clínica do campo mauritano, disse à AP que a vítima de violação de 14 anos gravemente ferida é provavelmente um exemplo de um problema muito maior.
“Estamos convencidos de que há muitos casos como este,” disse Elidje, acrescentando que poucas pacientes procuram tratamento, a menos que ou até que as complicações se tornem fatais.
Dois outros malianos mostraram à AP vídeos de aldeias incendiadas pelo Africa Corps.
“Essas pessoas nem sequer falam connosco,” disse um chefe de aldeia maliano. “Assim que encontram alguém, matam-no.”
