Pouco depois de os terroristas do Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) terem imposto um bloqueio de combustível em Bamako em Setembro de 2025, o líder da junta do Mali escolheu um oficial sénior da Guarda Nacional para liderar a luta contra o grupo.
O General Assimi Goïta nomeou o Brigadeiro-General Famouké Camara, de 47 anos, para liderar a Operação Fuka Kènè, que significa “limpeza” em Bambara. É a peça central da estratégia de Goïta para vencer a chamada guerra do combustível, de acordo com a revista The Africa Report.
Camara integra estratégia militar e logística para melhorar a protecção dos comboios, o que está em linha com a abordagem antiterrorista do Mali, que dá prioridade ao exército, relata a revista. A sua nomeação também marca uma mudança para uma supervisão unificada das operações defensivas de alto risco e tem como objectivo restaurar a confiança do público nas operações antiterroristas da junta, frequentemente criticadas.
Mercenários russos, inicialmente conhecidos como Grupo Wagner e agora chamados de Africa Corps, apoiam as forças armadas do Mali, mas o JNIM conquistou recentemente um território significativo. Alguns analistas alertam que a queda de Bamako pode ser iminente.
Um colaborador próximo de Camara disse à revista que o líder militar tem uma reputação “sólida, intacta e livre de escândalos.” “É alguém que raramente fala sobre si mesmo,” disse o colaborador. “Muito reservado, embora sociável.”
Camara enfrenta uma tarefa difícil. De acordo com o Bloomsbury Intelligence and Security Institute do Reino Unido, o JNIM interrompeu as rotas de transporte terrestre e reduziu as entregas de combustível em cerca de 80% através de ataques frequentemente mortais a colunas de combustível provenientes da Costa do Marfim, Guiné, Mauritânia e Senegal.
O JNIM retomou os ataques a dois comboios de combustível nos dias 6 e 10 de Dezembro ao longo da rota de Bougouni, que transporta 57% do combustível do Mali proveniente da Costa do Marfim, de acordo com o Critical Threats Project do American Enterprise Institute. A escassez de combustível ao longo da rota complica a produção de electricidade, o transporte de alimentos e as operações humanitárias. No entanto, uma fonte de segurança maliana disse à revista Jeune Afrique que houve resultados positivos desde que Camara assumiu a Operação Fuka Kènè.
“Há mais de um mês que temos levado combustível para Bamako sem incidentes graves e neutralizámos vários terroristas, tanto no corredor Mali-Senegal como no corredor Mali-Costa do Marfim,” disse a fonte.
Camara é natural de Gonsolo, uma aldeia no coração de Mandé, o berço histórico do Império do Mali. Frequentou a Prytanée militaire de Kati, a escola preparatória militar de elite do Mali, e a École militaire interarmes de Koulikoro, a principal academia de formação de oficiais do país, de acordo com o The Africa Report.
Continuou a sua formação na École Supérieure Internationale de Guerre, uma escola superior de guerra nos Camarões, e na École de Guerre, a escola superior militar de elite da França.
A sua formação académica é complementada por uma experiência significativa em campos de batalha em áreas de alto risco. No início da década de 2000, serviu em Abeïbara, na região de Kidal, e em Léré, na região de Tombuctu, quando ambas as áreas viviam um aumento da insegurança, de acordo com o The Africa Report. Como oficial superior, viajava regularmente para as linhas de combate para avaliar as condições, encorajar os seus homens e mostrar o seu apoio. Em Agosto de 2025, dirigiu-se aos soldados durante uma missão a Kourémalé, na fronteira do Mali com a Guiné.
“Vim para ficar com as tropas, para dizer aos homens que continuem a apertar os cintos,” disse Camara, de acordo com o The Africa Report. “Vamos lutar pelos nossos antepassados, por nós próprios e pelos nossos descendentes. Esta é uma missão que nos propusemos e vamos levá-la a cabo, mesmo que isso nos custe a vida, se for necessário.”
As autoridades malianas recorriam regularmente a Camara para liderar operações complexas antes de Goïta assumir o poder. Durante a Copa Africana das Nações de 2002, em Bamako, esteve à frente de um grupo de intervenção responsável pela segurança do torneio. Em 2012, integrou a delegação maliana encarregada de elaborar o conceito de operações para a Missão Internacional de Apoio ao Mali, liderada por África, que mais tarde se tornou a Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização do Mali, conhecida como MINUSMA.
Camara passou parte da sua carreira na Sécurité d’État, o serviço de segurança interna do Mali. Em 2017 e 2018, liderou as operações e o combate ao terrorismo na Direction Générale de la Sécurité d’État, a direcção de inteligência externa e segurança do Estado.
“À frente desta unidade no centro do aparelho de inteligência do Mali, supervisionou a monitorização da segurança, a coordenação interagências e várias operações discretas contra redes jihadistas,” uma fonte do aparelho de segurança do Mali disse ao The Africa Report.
