Lakurawa, que começou como uma força de autodefesa no noroeste da Nigéria, evoluiu para uma organização terrorista alinhada com o Boko Haram, atacando civis e impondo a sua própria versão rigorosa da lei islâmica onde quer que vá.
“Lakurawa agora coopera com o Boko Haram e opera como um actor híbrido, confundindo a linha entre extremismo religioso e crime organizado,” os analistas Taiwo Adebayo, Célestin Delanga e Remadji Hoinathy escreveram recentemente para o Instituto de Estudos Estratégicos (ISS).
De acordo com os investigadores, Lakurawa opera principalmente nos Estados de Sokoto e Kebbi, no noroeste da Nigéria, e nas regiões fronteiriças do Benin e do Níger. As relações tensas com a junta governativa do Níger têm dificultado as operações de segurança ao longo dessa fronteira desde 2023, observam eles.
Relações de segurança fracas, fronteiras porosas e a falta de uma presença governamental forte permitiram o crescimento de Lakurawa, de acordo com os analistas.
O Lakurawa começou há mais de uma década como uma força regional composta por combatentes do Mali, Níger e Nigéria dedicados a combater o banditismo. Rapidamente ganhou apoio público numa região rural onde a presença do governo em matéria de segurança era reduzida.
“Claramente, o vazio deixado pelo Estado permitiu à Lakurawa estabelecer estruturas de governação paralelas, nomear imames locais, cobrar impostos e impor prescrições religiosas extremas às aldeias,” escreveram os investigadores do ISS.
Logo, o grupo antibanditismo voltou-se para o banditismo — sequestrando pessoas para obter resgate, roubando gado e apreendendo colheitas — para financiar as suas operações. Como outros extremistas islâmicos, os combatentes do Lakurawa defendem as suas acções como parte das obrigações religiosas das suas vítimas, muitas vezes, rotulando-as como zakat, um imposto exigido pela lei islâmica.
“Muitos aldeões agora expressam profundo arrependimento por terem acolhido o grupo,” escreveu Malik Samuel, investigador sénior da Good Governance Africa-Nigeria, com base em relatos em primeira mão de um acampamento Lakurawa.
“Na altura da chegada do Lakurawa, a resistência era impossível,” acrescentou Samuel. “O grupo apresentava-se como uma força moral, e os agentes de segurança do Estado estavam visivelmente ausentes.”
A partir de 2023, de acordo com os investigadores do ISS, combatentes do Lakurawa começaram a visitar campos do Boko Haram no nordeste, e alguns combatentes do Boko Haram começaram a mudar-se para o noroeste. Os terroristas do Lakurawa lançaram o seu primeiro ataque contra moradores locais em Novembro de 2024, matando 17 pessoas na aldeia de Mera, no Estado de Kebbi. O governo da Nigéria declarou o Lakurawa como um grupo terrorista em Janeiro de 2025.
Nos meses seguintes, o Lakurawa matou cerca de 250 pessoas, incluindo bandidos, civis e soldados, à medida que se espalhava pela região, de acordo com relatórios do Projecto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED) e da Amnistia Internacional. As suas tácticas espelham as do Boko Haram, que ataca alvos civis e de segurança no Estado de Borno.
“Eles estão a deslocar e expulsar os residentes locais dos seus assentamentos e a convertê-los em campos de recrutamento e treino,” um líder local do Estado de Sokoto disse ao The Africa Report. “Eles avaliam o seu nível de islamismo, mas a maioria das pessoas falha e eles tornam-nas seus súbditos.”
Tal como outros grupos terroristas no Sahel, os combatentes do Lakurawa deslocam-se em motociclos e escondem-se em áreas florestais. Eles invadem comunidades, chicoteiam civis por uma série de ofensas, como tocar música e exigem tributos na forma de gado.
O roubo de gado, incluindo bois usados para arar campos, prejudica a produção agrícola e ameaça a segurança alimentar em toda a região, de acordo com Samuel.
Entre as vítimas de sequestro do Lakurawa está o vice-presidente da Assembleia Legislativa do Estado de Kebbi, Muhammad Sama’ila Bagudo, que foi mantido em cativeiro durante uma semana no início de Novembro. Ele foi liberto após pagar um resgate de 140.600 dólares, parte do qual em francos CFA, moeda utilizada no Benin, no Níger e em grande parte da África Ocidental francófona.
O rapto de Bagudo demonstrou a expansão do alcance operacional do Lakurawa, segundo Samuel.
“A ameaça está activa, a crescer e à espera do momento em que poderá eclodir totalmente, a menos que a Nigéria trabalhe activa e urgentemente para garantir que a ameaça nunca se concretize,” escreveu.
