O Botswana juntou-se recentemente a uma lista crescente de países africanos cujos cidadãos foram enganados para lutar pela Rússia na sua guerra contra a Ucrânia.
No dia 15 de Dezembro, o Ministério das Relações Internacionais disse que iniciou uma investigação sobre relatos de dois jovens que foram levados para a Ucrânia para lutar pelo exército russo. As autoridades do Botswana estão a trabalhar através de canais diplomáticos para encontrar os homens e trazê-los de volta para casa.
“O ministério deseja informar ao público que recebeu relatos sobre dois jovens tswanas, de 19 e 20 anos, que supostamente foram vítimas e sucumbiram a um processo de recrutamento enganoso que resultou em eles lutarem na linha da frente do conflito armado em curso entre a Rússia e a Ucrânia,” disse o ministério, acrescentando que os homens foram “levados a acreditar que participariam num programa de treino militar de curta duração na Rússia.”
A Rússia tem recrutado sistematicamente cidadãos estrangeiros, particularmente de África, desde o início da sua invasão em 2022. Tem utilizado esquemas, muitas vezes, disfarçados de oportunidades de formação ou emprego, para atrair homens e mulheres para a linha da frente e para funções de apoio, como a fabricação de drones.
Em Novembro, o Quénia afirmou que mais de 200 dos seus cidadãos estavam a lutar pela Rússia na guerra contra a Ucrânia. As autoridades sul-africanas informaram que 17 cidadãos estão actualmente presos na Rússia após terem sido recrutados em circunstâncias semelhantes, enquanto outros foram presos antes de chegar a Moscovo. No início de Dezembro, a polícia deteve cinco pessoas sob suspeita de recrutar sul-africanos para a Rússia.
Thierry Vircoulon, investigador do Instituto Francês de Relações Internacionais, é co-autor de um estudo sobre a abordagem de recrutamento da Rússia na África Subsaariana.
“Estas práticas de recrutamento abusivas e enganosas são semelhantes a uma forma de tráfico de seres humanos, cuja consequência mais trágica é o envio de mercenários amadores para a linha da frente como ‘carne de canhão,’” disse num comunicado de imprensa de 18 de Dezembro. “Para alguns, esta aventura migratória numa guerra estrangeira é uma viagem só de ida e, para muitos, a guerra é uma armadilha que se fecha sobre eles.
“Os governos africanos estão agora a começar a reagir contra esta política de recrutamento abusiva. Foram lançadas investigações em vários países, e os governos do Quénia e da África do Sul exigiram que Moscovo repatriasse os seus cidadãos que servem no exército russo. Outros governos africanos seguirão certamente o exemplo, expondo ainda mais as práticas de recrutamento da Rússia.”
O Botswana alertou os seus cidadãos para não serem vítimas de “esquemas de recrutamento internacionais duvidosos e potencialmente mortais” que prometem dinheiro para combater.
“Os jovens são encorajados a permanecerem vigilantes e a contactarem as autoridades competentes, incluindo as missões diplomáticas do Botswana, para verificar a autenticidade de propostas de recrutamento questionáveis,” afirmou.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia elogiou o Botswana por alertar os seus cidadãos sobre os perigos dos esquemas de recrutamento russos.
“Este processo de recrutamento, que requer a celebração de contratos formais e a interacção directa com o Ministério da Defesa ou o Estado-Maior da Rússia, demonstra claramente o envolvimento das instituições estatais russas,” afirmou num comunicado de 16 de Dezembro.
Estas práticas “não podem ser caracterizadas como actos criminosos isolados ou trabalho de intermediários não autorizados. Elas constituem uma política organizada e sistemática implementada pelo aparelho estatal russo como parte de uma guerra agressiva contra a Ucrânia, em flagrante violação da Carta das Nações Unidas, do direito internacional humanitário e das normas fundamentais dos direitos humanos.”
O popular comentarista das redes sociais Zack Mwekassa, um pugilista congolês que vive na África do Sul, manifestou-se contra as práticas de recrutamento da Rússia.
“São crianças,” disse num vídeo publicado nas redes sociais a 18 de Dezembro. “Estão a lutar na Ucrânia. Como é que dois jovens de 19 e 20 anos se encontraram na Ucrânia a lutar pela Rússia? Não compreendo isso. … O Botswana é um dos países mais pacíficos do mundo, um dos países mais democráticos de África. Como é que dois jovens do Botswana se encontraram neste lugar? É muito triste.”
