O Mersin, um petroleiro de propriedade turca que recentemente visitou um porto russo, foi atingido por quatro explosões enquanto estava ancorado nas águas ao largo de Dakar, no Senegal, no dia 27 de Novembro. Ninguém ficou ferido e não foram relatados casos de poluição.
O navio com bandeira do Panamá, que transportava 39.000 toneladas de combustível, é suspeito de fazer parte da “frota paralela” da Rússia, composta por embarcações comerciais antigas usadas para contornar as sanções ocidentais às exportações de petróleo e, segundo especialistas, para traficar armas para zonas de conflito em África.
Acredita-se que o ataque tenha sido realizado pela Ucrânia, que está em guerra com a Rússia desde que Moscovo invadiu o país em Fevereiro de 2022. A Ucrânia não reivindicou a responsabilidade pelo ataque, e o navio não constava da lista de embarcações sancionadas.
“De acordo com a lei dos conflitos armados, os beligerantes devem distinguir entre alvos civis e militares,” Basil Germond, especialista em segurança internacional e marítima da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, disse ao canal de notícias France 24. “Dito isto, historicamente, em guerras totais, como as duas guerras mundiais, o transporte comercial, muitas vezes, era alvo de ataques como parte da guerra económica. Assim, as exportações de energia podem ser consideradas objectivos estratégicos — semelhantes aos ataques da Rússia à rede energética da Ucrânia ou aos ataques da Ucrânia às refinarias russas.”
Dirk Siebels, especialista em segurança marítima da consultoria Risk Intelligence, disse que a Ucrânia provavelmente veria o Mersin como um alvo legítimo. As exportações de grandes quantidades de petróleo ajudam a Rússia a financiar a sua guerra com a Ucrânia.
“Do ponto de vista ucraniano, é claro que isso ainda é algo que financia o governo russo — e, portanto, o esforço de guerra russo na Ucrânia,” Siebels disse à France 24.
As explosões no Mersin ocorreram em meio a uma série de ataques a navios comerciais suspeitos de pertencerem à frota paralela da Rússia, a maioria dos quais sem seguro adequado; que frequentemente mudam de bandeira, proprietários e operadores; e que transbordam petróleo no mar para ocultar a sua origem. A France 24 registou sete ataques a navios ligados à Rússia entre Dezembro de 2024 e 3 de Dezembro de 2025. Esses ataques ocorreram nas costas da Itália, Líbia, Rússia, Espanha e Turquia.
No dia 19 de Dezembro, a Ucrânia usou drones para atacar o Qendil, um petroleiro da frota paralela da Rússia no Mar Mediterrâneo. O navio, que ficou bastante danificado, atracou posteriormente na costa da Líbia, embora não estivesse claro onde exactamente o navio vazio teria atacado. A Reuters informou que os Serviços Secretos da Ucrânia estavam por trás do ataque.
“Este desenvolvimento reflecte uma expansão acentuada do uso de sistemas aéreos não tripulados pela Ucrânia contra activos marítimos associados à rede de exportação de petróleo sancionada pela Rússia,” afirmou o grupo britânico de gestão de riscos marítimos Vanguard.
No início de Dezembro, um suposto ataque com drones ucranianos atingiu o petroleiro Kairos, um navio com bandeira da Gâmbia que se acredita fazer parte da frota paralela da Rússia, enquanto navegava do Egipto para a Rússia ao largo da costa da Bulgária.
No dia 18 de Dezembro, o Conselho da União Europeia impôs sanções a 41 navios russos, elevando para quase 600 o número de navios sancionados na frota paralela, que tem mais de 1.100 petroleiros, de acordo com o Serviço de Inteligência Estrangeira. A maioria dos petroleiros está registada em três países: Rússia, onde 14% estão registados; Libéria, 11%; e Serra Leoa, 9%. Os especialistas afirmam que os navios da frota costumam ser registados em países com baixos níveis de regulamentação e transparência.
Numa medida contra a frota paralela, a Libéria anunciou em 2024 que deixaria de autorizar a cobertura de seguro da Ingosstrakh Insurance Co. da Rússia, uma das principais seguradoras dos navios da frota.
