Os especialistas estão alarmados com a crescente violência no Sahel e com a possibilidade de os grupos extremistas consolidarem os seus ganhos para formar um Estado de terror.
No ano passado, o Burquina Faso foi o país mais afectado pelo terrorismo a nível mundial, de acordo com o Índice de Terrorismo Global, e os grupos armados controlam agora mais de metade do país. O Mali foi classificado em terceiro lugar e o Níger em 10º.
As juntas militares destes países utilizaram a insegurança para justificar a tomada do poder. No entanto, os ataques terroristas na região duplicaram e as mortes resultantes triplicaram desde 2021, o analista Michael DeAngelo escreveu para o Foreign Policy Research Institute. Os extremistas assumiram o controlo de grandes extensões de território, incluindo estradas importantes, ameaçando as capitais de cada país.
“Se as insurgências continuarem ganhando força no seu ritmo actual, elas estarão posicionadas para forçar o governo a sair dos centros populacionais,” escreveu DeAngelo. “Isso faria com que estes países se tornassem Estados em colapso e permitiria aos grupos jihadistas estabelecer um Estado islâmico.”
DeAngelo relatou que os países do Sahel adoptaram estratégias antiterroristas de mão pesada que não coadunam com a realidade das insurgências. Ele e outros analistas apelaram a uma mudança para uma estratégia anti-insurgência mais centrada na população, que dê ênfase à criação de relações e à resolução das queixas locais. De acordo com DeAngelo, as forças armadas devem garantir a segurança e uma governação eficaz nas comunidades afectadas, a fim de resolver os factores que estão na origem das insurgências, incluindo a falta de oportunidades económicas.
As juntas também abandonaram a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) e formaram a Aliança dos Estados do Sahel. A CEDEAO ofereceu-se para acolher os países liderados pelas juntas de volta ao bloco regional.
Omar Hama, um civil que vive no Níger, disse à BBC que gostaria que os países tivessem permanecido na CEDEAO, pertencendo simultaneamente à aliança. “Gostaria que eles tivessem ultrapassado as suas diferenças, porque temos um espaço comum, o mesmo povo com semelhanças históricas e as mesmas realidades económicas,” disse Hama.
No Burquina Faso, Cisse Kabore, um civil que vive em Ouagadougou, disse à BBC que queria que o seu país permanecesse na CEDEAO, porque agora a região “já não estará unida como antes.” Os investigadores afirmam que a CEDEAO é o mais bem integrado dos oito grupos económicos regionais de África.
Rotimi Olawale, um analista de assuntos políticos na Nigéria, disse que os Estados do Sahel não podem sobreviver muito tempo sem os seus vizinhos. “Neste momento, eles têm um forte apoio nos seus países, [por isso] vão contar com esse apoio, mas prevejo que, à medida que os desafios económicos se acumulam, as inseguranças são muito elevadas, os cidadãos vão exigir soluções reais para os problemas locais e, para isso, precisam de muito apoio de intervenientes externos, incluindo a CEDEAO,” Olawale disse à Voz da América.
Os grupos terroristas, em particular o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), ligado à al-Qaeda, e o Estado Islâmico-Província do Sahel (IS Sahel), pretendem expandir-se para a costa ocidental africana. As populações desta região partilham os mesmos desafios que as nações sahelianas, incluindo tensões étnicas e a falta de presença do Estado em algumas zonas, que os grupos exploram.
A JNIM expandiu a sua actividade para o Benin, a Costa do Marfim e o Togo. Segundo DeAngelo, a JNIM e o IS Sahel recrutaram militantes destes países, bem como do Gana, da Mauritânia e do Senegal, apelando a grupos étnicos como os Fulani, que as juntas dizem proteger.
“Os grupos jihadistas poderão exportar as suas insurgências se continuarem a fortalecer-se no Sahel,” escreveu DeAngelo. “Eles declararam a sua intenção de o fazer e irão provavelmente tirar vantagens de quaisquer aberturas.”
DeAngelo ofereceu várias recomendações aos países do Sahel para combater as insurgências:
* Manter territórios com uma presença consistente de forças de segurança em áreas não governadas, sobretudo na zona da tríplice fronteira entre o Burquina Faso, o Mali e o Níger.
* Reintegrar a CEDEAO e acolher as tropas internacionais de volta à região, incluindo as das Nações Unidas.
* Melhorar a governação nas zonas rurais propensas a incursões jihadistas.
* Prosseguir as negociações para desmobilizar os jihadistas e aliviar as tensões étnicas.
* Evitar o pagamento de resgates para libertar reféns, visto que os resgates são a principal fonte de financiamento dos insurgentes.