Os rebeldes do M23, apoiados pelo Ruanda, estão a levar o caos ao leste da República Democrática do Congo (RDC), numa altura em que continuam a apoderar-se de cidades estratégicas e a reforçar o seu controlo sobre uma região que cambaleia à beira da guerra.
O grupo capturou Goma, a capital da província de Kivu do Norte, no final de Janeiro, anunciando uma nova ofensiva com uma força esmagadora.
Depois de terem tomado o aeroporto nos arredores de Bukavu, a capital da província de Kivu do Sul, a 14 de Fevereiro, os rebeldes entraram no centro da cidade dois dias depois.
“Eram cerca das 06h00 da manhã e eles entraram triunfalmente, sem encontrar qualquer resistência,” um habitante disse ao Le Monde, sob condição de anonimato. “Algumas pessoas colocaram-se na berma da estrada para os aplaudir, mas não nos resta outra alternativa senão mostrarmo-nos corajosos. Aqui, há medo e incerteza.”
De acordo com Ciaran Wrons-Passmann, director da Rede Ecuménica da África Central em Berlim, a tomada do aeroporto de Bukavu foi significativa.
“Isso vai separar todo o leste do resto da República Democrática do Congo e dificultar o fornecimento de equipamento militar e de tropas ao exército congolês,” disse à Deutsche Welle.
A maioria do exército congolês (FARDC) tinha abandonado Bukavu um dia antes, a 13 de Fevereiro, dirigindo-se mais para sul para se reagrupar com os seus aliados da milícia Wazalendo em Uvira.
A segunda maior cidade do Kivu do Sul, Uvira, situa-se junto ao Lago Tanganhica, a uma curta distância de Bujumbura, a capital do Burundi. A retirada dos soldados do Burundi, alguns dias depois da queda de Bukavu, facilitou o avanço dos rebeldes em direcção a Uvira, segundo a agência noticiosa Agenzia Fides.
As tensões estão a aumentar no Burundi, onde os refugiados congoleses atravessam diariamente a fronteira, alguns atravessando o Rio Rusizi em barcos improvisados. Mais de 9.000 chegaram só no dia 19 de Fevereiro e mais de 40.000 congoleses, na sua maioria mulheres e crianças, procuram refúgio no Burundi desde o início de Fevereiro, segundo as Nações Unidas.
Com milhares de tropas no leste da RDC, o Ruanda tem enfrentado uma pressão crescente de todo o continente e da comunidade internacional. A União Africana, a Comunidade da África Oriental, a Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral e a ONU condenaram a invasão e apelaram a um cessar-fogo.
À medida que a situação humanitária se agrava, as tropas do Burundi no Kivu do Sul preparam-se para lutar.
“Desde [23 de Fevereiro], temos observado movimentos de soldados burundianos fortemente armados em direcção a Luvungi,” alguns por estrada a partir de Uvira, outros “atravessando o Rio Rusizi,” um residente de Sange, situada a meio caminho entre Uvira e Luvungi, disse à Agence France-Presse.
O Burundi já desempenha um papel importante no conflito. De acordo com Wrons-Passmann, o país não só tem interesses de segurança óbvios, como também está em crise económica e carece de divisas.
“É, portanto, conveniente que o Congo esteja a pagar bem pelo destacamento de tropas do Burundi,” disse.
Em Janeiro de 2024, o Burundi fechou as fronteiras com o Ruanda e rompeu relações diplomáticas, acusando o país vizinho de apoiar os rebeldes do leste da RDC que agitavam contra o Presidente do Burundi, Évariste Ndayishimiye. Acusou o Presidente do Ruanda, Paul Kagame, de belicismo.
“Se o Ruanda continuar a conquistar o território de outro país, sei que vai chegar ao Burundi,” Ndayishimiye disse em Janeiro, numa reunião diplomática em Bujumbura, avisando que a guerra iria assumir “uma dimensão regional.”
Mais de 10.000 soldados burundianos foram destacados para combater ao lado das tropas das FARDC desde Outubro de 2023. Mas apesar de o Burundi ter reforçado a sua presença desde o aumento do conflito no final de Janeiro de 2025, o avanço dos combatentes do M23 para sul está agora a mudar esse cálculo.
“O exército acelerou a extracção dos nossos soldados destacados na planície de Rusizi, na RDC,” um oficial superior do exército do Burundi disse à AFP no dia 20 de Fevereiro, sob condição de anonimato. Disse que os soldados da RDC estavam agora a enfrentar sérios problemas de reabastecimento, culpando as forças congolesas desorganizadas.
Os soldados do Burundi estavam “completamente perdidos,” acrescentou. “Não têm mais munições, nem comida e têm de se desenrascar.”