Desembarcaram dos autocarros e juntaram-se numa longa fila no Aeroporto Internacional de Kigali, no Ruanda. Alguns tinham expressões severas, outros riam e faziam conversa fiada. Alguns pareciam ter 20 anos, outros pareciam adultos. A maioria tinha barba.
A República Democrática do Congo contratou estes mercenários romenos para ajudar a proteger a região oriental do país, onde o grupo rebelde M23 tem vindo a ressurgir violentamente. Estavam a regressar a casa no início de Fevereiro, alguns dias depois de o M23 ter tomado Goma, capital da província do Kivu do Norte, após uma batalha sangrenta.
Um dos mercenários disse ao jornal ruandês New Times que tinha trabalhado para uma empresa privada durante mais de uma década e que tinha sido destacado para a RDC durante dois anos como instrutor militar.
“Só trabalho com militares, cuja patente mais elevada é a de tenente, cabo, ou algo do género,” disse o homem, que falou sob anonimato. “Como instrutor, ao serviço de uma empresa militar privada, estive envolvido na formação de militares do governo para ensinar alguém a fazer alguma coisa. Penso que, sim, fiz o meu trabalho da minha parte. Quando o M23 [estava] a aproximar-se de Goma, OK, procurámos a protecção da ONU [Organização das Nações Unidas] em Goma.”
Um outro mercenário disse ter licenciatura em medicina e ter trabalhado na RDC como instrutor.
“O pagamento foi feito por contrato por quem nos contratou, e não posso dar-lhe os números porque depende do que estávamos a fazer,” disse ao New Times. “As condições eram muito simples. São três meses e um mês de férias.”
Os mercenários estavam entre os que tiveram a sorte de sobreviver à batalha. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, 900 corpos foram recuperados das ruas de Goma, cerca de 3.000 pessoas ficaram feridas e milhares foram forçadas a fugir da província de Kivu do Norte.
Jens Laerke, porta-voz do Gabinete de Coordenação dos Assuntos Humanitários das Nações Unidas, afirma que “o número de vítimas é impressionante”. “Nós e os nossos parceiros estamos a lutar para avaliar a extensão total da situação.”
Os mercenários romenos foram-se embora enquanto o M23 continuava a avançar. No início de Fevereiro, o grupo quebrou um cessar-fogo ao apoderar-se da cidade mineira de Nyabibwe, no Kivu do Sul. A cidade é um centro comercial a mais de meio caminho entre Goma e Bukavu, capital do Kivu do Sul.
“Houve confrontos desde as 5 da manhã e foi às 9 da manhã que a cidade caiu nas mãos dos rebeldes,” um representante da sociedade civil, sob anonimato, disse à Reuters. “Eles estão no centro da cidade neste momento.”
Entre 26 de Janeiro e 12 de Fevereiro, mais de 3.000 pessoas foram mortas nos combates, 2.880 ficaram feridas e mais de 500.000 foram deslocadas, juntando-se aos 6,4 milhões de pessoas já deslocadas internamente, informou a ONU.
A partir de Nyabibwe, o M23 enfrentou as forças congolesas em Lubero, centro administrativo do Território de Lubero, no Kivu do Norte, em meados de Fevereiro. Depois de romperem a linha defensiva das forças congolesas em Ihusi, os rebeldes avançaram em direcção à cidade de Katana, no Kivu do Sul, a 11 quilómetros do aeroporto de Bukavu, de que se apoderaram no dia 14 de Fevereiro.
A presença do M23 na RDC tem sido uma fonte de tensão de longa data entre a RDC e o Ruanda, que é acusado de apoiar os rebeldes. Kigali nega este facto.
Quando os mercenários romenos partiram no início de Fevereiro, o Ministro dos Negócios Estrangeiros do Ruanda, Olivier Nduhungirehe, afirmou que o recrutamento e a utilização de mercenários europeus pela RDC violavam uma convenção da Organização da Unidade Africana de 1977 e uma convenção das Nações Unidas de 1989.
Pelo menos 20 soldados da paz, incluindo 14 da África do Sul, foram mortos nos combates entre o M23 e as forças congolesas, segundo a Agência Anadolu.