Pesquisadores Africanos Querem Expandir o Papel do Continente na Procura de Curas para Doenças

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EQUIPA DA ADF

Dos mais de 2.000 ensaios clínicos de medicamentos que os cientistas realizaram desde a eclosão da pandemia da COVID-19, apenas 150 decorreram em África.

Trata-se da continuação de uma tendência histórica que já viu África mal representada em ensaios clínicos durante décadas. Dos milhares de ensaios de medicamentos realizados pelo mundo anualmente, apenas cerca de 2% deles decorrem em África.

Contudo, esta situação parece estar a mudar, em parte, por causa da pandemia da COVID-19.

A maior parte das pesquisas que foram realizadas no continente centraram-se em doenças que incluem a malária, a tuberculose e o HIV.

Especialistas em matéria de saúde afirmam que deve ser feito mais para testar as respostas dos africanos aos tratamentos de outras doenças, incluindo o cancro, que agora mata mais africanos do que a malária. Os africanos têm uma elevada taxa de cancro cervical e sarcoma de kaposi, ambos ligados a infecções.

“Temos uma grande população de 1,2 bilhões de pessoas, maior do que a América do Norte e a Europa juntos,” Jenniffer Mabuka-Maroa, uma especialista em matérias de saúde da Academia Africana de Ciências, disse à revista médica, The Lancet. “Consta que esta população também é geneticamente muito diversa e encontra-se sob exposições ambientais únicas que influenciam as nossas reacções corporais aos medicamentos e às vacinas.”

A escala física e a diversidade genética de África fazem com que seja cada vez mais importante que os africanos desempenhem um papel maior nos ensaios clínicos, de acordo com especialistas em matérias de saúde pública.

“É difícil generalizar os resultados clínicos para um continente no seu todo,” disse Bartholomew Dicky Akanmori, conselheiro em matérias de pesquisas e legislação sobre vacinas dos escritórios regionais de África da Organização Mundial de Saúde.

A pandemia causou uma pressão para que mais pesquisas médicas sejam feitas em África, numa altura em que os pesquisadores e os profissionais de saúde procuram formas de reduzir o impacto das vagas de infecções.

Israel recentemente anunciou planos para testar um novo medicamento oral contra a COVID-19, na África do Sul. Os pesquisadores esperam que este método de administração venha encorajar as pessoas que até agora se recusam a usar outros tratamentos para se protegerem contra a doença.

Os laboratórios de pesquisa africanos também estão a realizar uma série de ensaios destinados a procurar por tratamentos contra a COVID-19 entre os medicamentos geralmente utilizados à volta do continente. A esperança é de encontrar alternativas aos tratamentos dispendiosos, tais como os anticorpos monoclonais, que estão a ser utilizados em outros lugares do mundo.

Mas isso nem sempre é tão linear. Na Nigéria, um ensaio chamado NACOVID teve de ser abandonado quando os pesquisadores não conseguiram recrutar pacientes suficientes.

“Alguns dos pacientes recusaram-se a participar no estudo quando foram abordados, enquanto outros que tinham concordado interromperam no decurso dos ensaios,” Adeola Fowotade, uma virologista clínica do Hospital do Colégio Universitário de Ibadan, disse à revista Nature.

A experiência da NACOVID representa um problema maior, de acordo com o investigador chefe, Adeniyi Olagunju. Ficando de fora nos ensaios de medicamentos, os africanos não se beneficiam quando chega o tempo da distribuição dos tratamentos que aqueles ensaios produziram, Olagunju disse à Nature.

A desinformação e a falta de confiança podem interferir nas tentativas de recrutar pessoas para os ensaios médicos, assim como o podem fazer os problemas básicos de infra-estruturas, tais como a falta de laboratórios, produtores de medicamentos e legislação para garantir que os ensaios sejam feitos de forma ética.

Pelo menos um estudo da COVID-19, no Egipto, no início da pandemia, teve de ser suspenso por causa de preocupações relacionadas com a metodologia e questões éticas ligadas à forma como os participantes dos testes eram recrutados.

As autoridades formaram o Consórcio de Ensaios Clínicos de África, em 2017, numa tentativa de resolver os problemas de pesquisa do continente.

Parte do mandato do consórcio é expandir a capacidade do continente para realizar ensaios que satisfaçam os padrões globais e acelerar os programas de ensaios clínicos em África.

Tanto a qualidade como a rapidez são cruciais para encontrar soluções africanas para as doenças que assolam o continente, disse o Dr. Tom Nyirenda, da Parceria entre a Europa e os Países em Desenvolvimento para a Realização de Ensaios Clínicos (EDCTP).

“Não é possível alcançar a qualidade e a rapidez se não quiser ter locais suficientes que são competentes para responder às perguntas de pesquisa e trazer provas que possam ser transformadas em intervenções,” disse Nyirenda.

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