Especialistas Esperam que a COVID-19 Cause uma ‘Revolução’ Africana das Vacinas

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EQUIPA DA ADF

Simon Agwale, presidente do grupo de trabalho da tecnologia de vacinas, na Iniciativa Africana de Produção de Vacinas e PCA da produtora nigeriana de vacinas, Innovative Biotech Ltd. SIMON AGWALE

Aproximadamente 18 meses depois de a pandemia ser declarada, África ainda depende de outros países para fornecer as vacinas que salvam vidas e que podem acabar com a propagação da COVID-19.

O continente sentiu o impacto dessa dependência depois de a Índia, que enfrentava o enorme surto da variante Delta em Maio, ter bloqueado as exportações da vacina da AstraZeneca, produzidas naquele país, no centro do programa de vacinação de África.

Mas as coisas estão prestes a mudar.

Uma versão produzida em África da vacina de dose única da Johnson & Johnson poderá entrar no mercado já em Agosto — a primeira de 400 milhões de doses previstas para serem produzidas pela Aspen Pharmacare, na África do Sul.

Mesmo com a propagação de uma terceira vaga da pandemia da COVID-19 em toda a África, a pandemia também está a conduzir uma revolução tecnológica que irá remodelar a capacidade de resposta do continente ao actual e a futuros surtos de doenças.

O projecto da Aspen Pharmacare é a primeira de várias parceiras que irão expandir drasticamente a capacidade de África de desenvolver vacinas contra a COVID-19, o Ébola e outras doenças.

“Esta pandemia abriu os nossos olhos para ver que isso precisava de ser feito, não só para o benefício de África mas para o mundo inteiro,” disse à ADF o imunologista nigeriano Simon Agwale, presidente do grupo de trabalho da tecnologia de vacinas, na Iniciativa Africana de Produção de Vacinas (AVMI, na sigla inglesa).

Em 2010, a AVMI começou a reunir os produtores africanos de vacinas e outros grupos, com o objectivo de promover a capacidade do continente de desenvolver as suas próprias vacinas. Até agora, África importa 99% das suas vacinas. A única vacina produzida do início ao fim, em África, é a vacina contra a febre-amarela, desenvolvida pelo Instituto Pasteur de Dakar, no Senegal.

O trabalho da Aspen, no que diz respeito à COVID-19, é uma operação denominada “fill-and-finish” (encher e concluir), que começa com a importação, pela empresa, de uma forma concentrada da vacina completa a partir das instalações de produção da J&J. Em laboratórios esterilizados da Aspen, a vacina é misturada nas proporções adequadas, colocada em frascos e embalada para distribuição pelos centros de saúde.

As operações “fill-and-finish” são um bom ponto de partida, mas não podem ser onde termina a capacidade de vacinas de África, disse Agwale.

“Se não existir investimento também na produção das próprias substâncias, acabamos por ficar com inúmeras instalações de abastecimento, mas nenhum produto que possa ser abastecido,” disse. “Também é preciso criar a capacidade em África, que eventualmente acabará por levar à (pesquisa e ao desenvolvimento) que possam ser feitos no continente. As doenças que nos assolam não são necessariamente as doenças que assolam o Ocidente.”

Em Abril, a União Africana e o Centro Africano de Controlo e Prevenção de Doenças (Africa CDC) definiram um objectivo ambicioso: até 2040, África irá produzir 60% das vacinas de que a sua população necessita.

“As pessoas que não têm a sua própria liberdade de fabrico de vacinas, diagnóstico e terapêutica não garantem a sua própria segurança em termos de saúde,” disse, na altura, o Dr. John Nkengasong, director do Africa CDC.

O objectivo exigirá uma transferência substancial de tecnologia e conhecimento especializados do estrangeiro. A COVID-19 parece ter dado o impulso necessário para esta transferência.

  • A Organização Mundial de Saúde anunciou recentemente um projecto com a Afrigen Biologics & Vaccines, da África do Sul, para desenvolver um centro de transferência de tecnologia para ensinar as empresas africanas a produzir vacinas mRNA, como as fabricadas pela Pfizer e pela Moderna, que têm sido altamente eficazes contra a COVID-19.
  • A empresa farmacêutica belga Univercells anunciou recentemente que iria trabalhar com o Instituto Pasteur do Senegal no lançamento das operações “fill-and-finish” para a sua própria vacina contra a COVID-19, com planos de, mais tarde, transferir todo o processo de desenvolvimento para Dakar.
  • O Ruanda e a União Europeia assinaram um acordo no valor de 3,6 milhões de dólares, para ajudar o país a actualizar e modernizar a sua capacidade laboratorial para que seja possível produzir vacinas mRNA contra a COVID-19.
  • O Banco Africano de Exportações e Importações e a Africa Finance Corp. comprometeram-se a cooperar no financiamento do desenvolvimento de vacinas, no envolvimento de parceiros e no relaxamento das barreiras para o fabrico de vacinas.

Outras empresas do Norte de África também estão a trabalhar em parcerias de desenvolvimento da vacina. A própria empresa de Agwale, Innovative Biotech Ltd., com sede na Nigéria, está a trabalhar na sua versão de uma vacina contra a COVID-19, usando a tecnologia desenvolvida para uma vacina contra o vírus do papiloma humano que causa cancro.

“Sem o apoio dos produtores africanos, isso não seria sustentável,” disse Agwale.

O custo de construir instalações especializadas de produção de vacinas e recrutar o pessoal ultrapassa a capacidade da maioria dos governos africanos. Os defensores vêem as parcerias com outras empresas e a transferência de tecnologia como uma forma de garantir que o continente vá além das operações “fill-and-finish”.

Agwale vê um recurso inexplorado para apoiar a revolução farmacêutica em África: a diáspora africana.

“O motivo pelo qual os bons cientistas africanos deixam os seus países é a falta de capacidade nos seus países,” disse Agwale. “Esta situação vai mudar. Agora existe uma dinâmica, existe interesse, existe financiamento a entrar em vigor assim que essas iniciativas começarem.”

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