COVID Ataca o Sector Agrário

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EQUIPA DA ADF

A segurança alimentar era um dos principais problemas em África antes de a COVID-19 eclodir, com as Nações Unidas a estimarem que quase 282 milhões de pessoas no continente se encontravam malnutridas, em 2020.

Mas a pandemia inflacionou os custos para os agricultores e prejudicou cada fase da cadeia de valores — produção, processamento, empacotamento e distribuição.

Hoje, a COVID-19 representa uma ameaça adicional para a segurança alimentar, num período em que muitos países já estão a relatar condições de fome aguda, subnutrição e condições semelhantes à seca.

“A magnitude do sofrimento é alarmante,” disse em Março o Director-Geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, Qu Dongyu. “Cabe a todos nós agir agora e agir depressa para salvar vidas, salvaguardar os meios de subsistência e prevenir a pior situação.

“Em muitas regiões, a época de plantação acaba de começar ou está prestes a começar. Precisamos de correr contra o tempo e não deixar escapar esta oportunidade de proteger, estabilizar e possivelmente até aumentar a produção local de alimentos.”

A indústria agrícola de África proporciona um meio de subsistência a 60% dos trabalhadores do continente e constitui 23% do seu produto interno bruto.

“Para os pequenos agricultores em toda a região, as sementes, os fertilizantes, a ração animal e os instrumentos de protecção de culturas, dos quais dependem para maximizar os rendimentos, tornaram-se escassos ou substancialmente mais dispendiosos, impedindo a produção de culturas de grande consumo, como o arroz e o milho, bem como o café etíope, a horticultura queniana e o ananás ganês,” escreveu o jornalista Charlie Mitchell para a revista African Business.

Os confinamentos obrigatórios da pandemia foram apenas um dos muitos obstáculos em várias regiões agrícolas.

A África Oriental enfrentou inundações e a pior praga de gafanhotos em 70 anos. Na África Austral, Zimbabwe, Madagáscar e Moçambique experimentaram secas e condições similares. Conflitos violentes no Corno de África, no Sahel, na Nigéria, em Moçambique e no Sudão do Sul, agravaram a insegurança alimentar.

“Muitas PMEs [pequenas e médias empresas] foram forçadas a reduzir a sua dimensão ou desistir, à medida que os alimentos apodreciam nas machambas ou nos camiões, causando perdas de emprego, insegurança alimentar e pobreza,” escreveu Mitchell. “Entretanto, os confinamentos obrigatórios sugaram a vida do sector informal, a fonte primária de emprego na África Subsaariana.”

Os lucros dos agricultores registaram uma queda vertiginosa, enquanto os custos continuam a subir.

A organização sem fins lucrativos, Precision Agriculture for Development, realizou um inquérito envolvendo aproximadamente 1.500 agricultores e comerciantes agrícolas quenianos, entre o final de Abril e o início de Junho, descobrindo que 76% dos comerciantes agrícolas registaram vendas mais baixas em comparação com o mês anterior.

Os agricultores também disseram que o preço dos produtos químicos, equipamento, ração, sementes e energia aumentou, e 55% comunicaram ter pedido emprestado dinheiro no mês anterior para cobrir despesas de subsistência.

Especialistas estão a clamar por financiamento urgente para ajudar a salvar e distribuir as colheitas deste ano, para quebrar um ciclo vicioso que vê os agricultores sobrecarregados com a dívida e incapazes de fazer os investimentos habituais para a próxima colheita.

Durante um painel de discussão, no início de Julho, Julie Greene, vice-presidente de alimentos e agronegócio internacionais na empresa do sector alimentar, Olam Internacional, disse que os agricultores precisam de melhor acesso a empréstimos, mão-de-obra e factores como fertilizantes, ração e água para o aumento da produção.

“A pandemia prendeu-os numa espiral descendente,” disse Greene. “Problemas de longa data, como explorações agrícolas ou fontes de rendimento não diversificados, multiplicam o desafio.”

O líder do agronegócio da International Finance Corp., Samuel Dzotefe, enfatizou a necessidade premente para lidar com as barreiras que impedem os agricultores de levar os seus alimentos até ao mercado.

“A infra-estrutura é muito importante para o sector agrícola,” disse ele no painel de debate. “O local onde os alimentos são produzidos é diferente de onde são vendidos. Precisamos de impulsionar a infra-estrutura, mesmo as estradas que usamos no sector.”

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